6:00 AM, 2:00 PM, 5:00 PM:

Swim in a flood current­,

Fly a kite,

Float on the wave generation zone,

Listen to the beginning and the end of a wave

Playa de Iracema, Fortaleza - Brasil 

At “6:00 AM, 2:00 PM, 5:00 PM”, three artists and researchers with common interests about the body-environment-time relationship, came together with the aim of produce a poetic writing together.

 

Felipe Gonzáles, Henrique Gomes and Valeria León, decided to meet at Iracema’s beach for several days, at different hours and atmospheric conditions (“6:00 AM, 2:00 PM, 5:00 PM), to create the text below. The Methodology used to do so is the Performance Practice as Research. Through this Methodology, each member of the team proposes to the group different experiences of sensory and cognitive field expansion.

 

The Performative Games that emerged from those encounters where: “Swim in a flood current”­, “Fly a kite”, “Float on the wave generation zone” and “Listen to the beginning and the end of a wave”.

You will find below this text that is a Map of the lived experiences. 

6:00 am,

14:00  pm,

18:00  pm

Nadar na correnteza de uma enchente

Um corpo nadando na correnteza de uma enchente, no centro da cidade, com um rato grudado no braço. Vai sacudir o costume. Vai desem-pó-ar o caminhar cinza, vai, essa cinza ser puxada pelo vento, vai virar companheira da areia, vai se esconder e se assentar na água. Um cinza nadando na corredeira de uma areia, no centro da água, com um vento guardado no corpo, vai sacudir o rato, vai desem-pó-ar o som que o rato faz. Parece o som de pequenas rodinhas, rolamentos secos, enferrujados, indo e vindo. Passos, cruzamentos e encruzilhadas do mundo dos ratos, trocas, informações e segredos exclusivos. Rei e visitante, passante e morador, com seu casaco cinza.

 

Que matéria é essa que não se consegue enxergar? Essa matéria, se consegue enxergar sim. A matéria que une esse objeto a outro. Essa matéria se manifesta em proximidade, em enquadramento do tecido tempo espaço, uma configuração peculiar, uma natureza de mini-micro objetos, mini-micro objetos, mini micro mar, mini-micro vento; Microfibra, poliéster. Neoprene. Para armar o arpão embaixo da água é preciso força. Tensão oposta à sua direção final. Tensão: potencial de trajetória, -> encontro, tensão ou T(ação)? Interação? Planta-ação? Ou ação? Direção, trajetória.

 

Corda. substantivo feminino.

Feixe alongado de fibras vegetais ou matéria flexível, similar, torcidas em espiral, que se juntam para erguer uma casa em alto mar. A corda é feita de pedaços, fragmentos de diferentes tipos de rocha e seres unicelulares. Unida por matéria vibrátil, sustentada por atração subatômica, a corda como linhas relações eletromagnéticas, como matéria de mar, fibra líquida entrelaçada, fios de água e vento que se juntam e separam dando sustento, estabilidade, sendo base sólida para toda construção. Vou fazer um buraco no chão do mar, bem profundo, encher de pedaços de vidro de diversos tamanhos e cobrir tudo com concreto. Em cima, acho que vou colocar uma flor.

Voar uma pipa

    Nos reunimos para voar uma pipa na praia de Iracema. A pipa artesanal feita por Henrique tem o corpo romboide, cauda e linha. Sustentar o corpo da pipa foi um dispositivo que me revelou o vento, claro, por simples presença e atenção é possível perceber o vento, mas a preparação para voar uma pipa convida a criar um campo de atenção ao meio, como se a sensorialidade na relação com o espaço se expandisse. Enquanto Henrique e Valeria tiram os nós da cauda e preparam a linha, eu sustento a pipa, nem muito forte para não quebrar, nem muito suave para não fugir. Mas ela é inquieta, como se palpitasse, como se não conseguisse esperar. Esse pequeno corpo, esse pequeno coração não tem como se conter por ser nativa do vento, existe pelo vento, é criatura do vento. Mas bem, parece filha entre terra e vento. E, o que é uma pipa se não voa? O que pode? Como se respirasse agitada, como se soubesse o que sentem as aves e quisesse sair, só que desesperadamente. Encontrei a força correta para pegar ela quando a abracei como se fosse uma pequena criatura surda e cega, cheia de sentidos. Fiquei escutando esse movimento numa pausa de olhos fechados para entrar em comunicação empática com esse coração fora do corpo, eu como estrutura ela como vontade. Depois de três tentativas, a gente não conseguiu voar a pipa por sua dificuldade de adaptação. Mas aquele pequeno momento foi perceber e conhecer o vento através dela. Extensão de nosso corpo e nossos sentidos. Foi conhecer a vontade da pipa e a vontade da gente. Extensão sensorial. A pipa acordou nossa percepção do vento, o vento acordou as capacidades da pipa. Nosso encontro acordou uma expectativa, tencionou um outro olhar com o corpo, com o espaço.

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Flutuar na zona de geração de ondas 

O vento sopra no mar. A superfície do mar, tocada pelo vento, se torna rugosa. Se o vento cessa, o mar se alisa, imediatamente. Se o vento continua, surgem pequenas deformações na superfície da água, fortes o suficiente para seguirem mesmo se, num momento qualquer, o vento cessar. Vento mais intenso, mais energia. Ondas maiores. Para que ondas de dois a três metros de altura se formem, é necessário que o vento sopre a vinte metros por segundo durante quarenta e oito horas. Estamos, os três, em um banho de mar. Conversamos aqui há quase uma hora. Ainda no mar, mas distante de nós, existe essa zona de geração das ondas, onde o vento sopra por quarenta e oito horas. Quarenta e oito horas em alto-mar. A cada segundo, outras quarenta e oito horas. Daqui parece que quarenta e oito horas na zona de geração tem a duração de um milhão de anos. Um milhão de anos e quarenta e oito horas é o tempo que as ondas levam para ir da zona de geração até a Praia de Iracema.

 

Na zona de geração as ondas se sobrepõem, desorganizadas, amontoadas, mar caótico. Fora da zona de geração, as ondas menores se dissipam. As maiores podem viajar por milhares de quilômetros. Do sul da Austrália ao Alasca. Do Atlântico Norte ao Brasil e, depois, à Namíbia. De onde vem as ondas que chegam à Praia de Iracema? Por quanto e por quanto tempo viajaram antes de se juntarem a nosso banho de mar? As ondas se propagam sempre na superfície e, como quando jogamos um corpo na água, por ondulações concêntricas. Se a água em toda sua extensão se deslocasse efetivamente, ao invés da energia propagar-se apenas na superfície, seríamos transportados pela onda em seu trajeto. Se assim fosse poderíamos viajar juntos agora para a Namíbia, nós três e a onda, em um constante empurrão. No entanto, enquanto a onda é propagação de energia na superfície da água, somos levados para cima e para baixo. Enquanto banho de mar, esse constante movimento vertical nos desloca, e o triângulo que formamos por vezes se torna equilátero, isósceles e também escaleno. Muitas vezes somos linha, ou ponto. E falamos. Falamos entre nós, junto ao mar. Conversamos no mar, na onda e na zona de geração. Esse movimento muda o lugar do qual falamos, e ainda falamos no mar. E agora, a possibilidade de viajar milhares de quilômetros em uma única onda me parece tão impressionante quanto subir e descer milhares de quilômetros em milhares de ondas.

 

É final de tarde e vamos embora. No caminho falamos de como o pôr do sol é sempre bonito em Fortaleza, mas a cada dia um bonito diferente. É noite. Durante o dia a temperatura no continente aumenta mais rapidamente que no oceano e gera vento do mar para a terra. Vento maral. Durante a noite a temperatura no continente diminui mais rapidamente que no oceano e gera vento da terra para o mar. Vento terral. O vento terral favorece a formação de ondas tubulares, ondas de quebra abrupta e violenta, que formam tubos. O vento maral favorece a formação de ondas deslizantes, ondas de quebra suave que deslizam formando um longo rastro de espuma.

Listen to the beginning and the end of a wave

A onda vem do lado direito.

Está vindo.

O som que constitui a sua quebra é cada vez mais forte.

É uma quebra sequencial,

um desmoronamento progressivo do mar,

que começa longe, se aproxima, me perpassa e se afasta.

A onda em ruína se desmorona na nossa frente, nos nossos ouvidos,

mas não para.

Segue o seu próprio ritmo, constante.

Segue até misturar seu quase homogêneo som de ruína,

com o som de uma onda passada,

de um desmoronamento menor,

de um pó menor.

De um pó a cada vez menor.

E me pergunto:

Qual é o som da poeira da ruína?

Qual é o som da poeira da ruína da onda?

Qual é o som da poeira da ruína da onda do mar?

Qual é o som do mar?

Qual é o teu som?

Percebi que são todas perguntas diferentes, e por enquanto, sons diferentes.

O som da poeira da ruína do mar é a impossibilidade de escutá-lo,

e não só porque seja microscópico, mas porque o mar está o tempo todo se desmoronando.

Porque o som do mar, é o som deste desmoronamento constante do mar.

O som do mar e o som desta descomposição constante, interminável.

Construção enquanto destruição, destruição enquanto construção.

Ruína que vira ruína antes de terminar de ser erguida.

Organização-reorganização-desorganização.

Monumento que é ruína durante seu erguimento.

Ruína perfeita, monótona, homogênea.

O som do mar é, de fato, a impossibilidade de escutar o fim do som da ruína do mar.

O som do fim da ruína do mar, é o som da poeira do mar.

Porque, qual é o fim de uma ruína se não é o pó?

E até quando podemos ouvir uma ruína?

Até quando podemos nós descompor em pedaços?

Pedaços que viram areia,

areia que vira

 

 

 

 

 

 

 

pó, que vira pó menor.

Menor?

Ruína que precisa ser sentida mais de perto.

Ruído de pó se destruindo, espuma de mar explodindo.

Ruína que está o tempo todo sendo ruína, se em-ruinando,

se juntando, voltando a ser construção, re-solidificação/re-liquidificação.

E assistimos de novo a nosso desmoronamento constante pois, ouvindo de perto, a ruína anterior (ou a mesma?), foi se tornando a cada vez mais imperceptível para nós, a cada vez mais abafada pela nova ruína.

Pois continuamos, com o nosso olhar/ouvido sendo ruína/ruído,

nos em-ruinando, celularmente, molecularmente.

A onda/ruína acaba/começa se juntando inconstante, invariável, devota e precisa; a uma onda maior.

A uma onda/ruína maior.

A uma onda/ruína a cada vez maior, já conformada por inúmeras ondas/ruinas em desmoronamento.

E a cada vez que uma/umas ondas/ruínas chegam lá na beira,

a cada vez que a espuma do mar volta para o oceano, um corpo em desconstrução, está se somando a um corpo em construção, que está se desconstruindo até virar novamente

pó de ruína,

 

                                       

 

 

 

                                                pó de mar,

 

 

 

                           

 

 

 

 

                                                                                espuma de mar

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Felipe Gonzáles,
Henrique Gomes,
Valeria León